Popularidade em tempos de redes sociais

 
 
 

Há alguns anos, assim que o Twitter começou a virar febre entre as pessoas, ouvi um comentário do jornalista José Simão sobre a lógica da rede social: “seu eu tiver mais de cem pessoas me seguindo (pela rua, quem sabe), eu me escondo no banheiro”. O receio foi superado pelo entendimento. José Simão está nas redes sociais comunicando e divertindo seus seguidores.

O que era um receio para o José Simão, para muitas pessoas é uma obsessão. Você mesmo deve conhecer alguém que faz de tudo para adicionar mais amigos ou atrair seguidores quase que freneticamente. Mais parecem o Gollum (Sméagol), personagem do filme Senhor dos Anéis, atrás do anel que chamava de “meu precioso”.

Para essas pessoas, a obsessão de ser popular na rede social virou sinônimo de ‘ser importante’ e, em muitos casos, não importando como.

Essa busca desenfreada pode esconder alguns desejos de afirmação: ser influente, ser aceito, sair do completo off-line para o evidente on-line, sobretudo num ambiente sem fronteiras como a internet. Para isso, vale tudo: mostrar o vestuário, o check-in no restaurante ou no local da viagem, o estilo de maquiagem, a prática de algum esporte, a exibição do corpo, entre outras ações que nos façam ver no outro/a, alguém que, pelo ter e poder, se possa associar. Para além da euforia, isso precisa ser pensado e questionado: ser importante a que custo? De que forma? Por quê?

Para essas questões e tantas outras que vão surgindo a esse respeito, o caminho não é outro senão avaliar e reavaliar a necessidade de ser ou não popular. Se os vazios existenciais e a sede de relacionamentos de fato serão suprimidas ou se tornarão ainda maior. A própria rede já nos deu exemplos de pessoas numa ascensão meteórica num dia, e no outro tornaram-se um mero vulto de lembrança na mente das pessoas. Daí perguntamos: o que ficou de toda essa experiência?

Convém lembrar algo que é quase um consenso em torno da questão das redes sociais. Não se trata de ingressar ou não, mas a forma de como a utilizamos em benefício próprio, ou de nosso grupo. Na lógica do curtir e compartilhar, postar uma foto, um pensamento, expressar opinião e indicar esse ou aquele local para ser visitado revela muito mais do que somos do que a mera ação de se postar algum status qualquer.

Nesse ponto, convém lembrar a mensagem do Papa Bento XVI para o Dia Mundial das Comunicações Sociais (DMCS) no ano de 2013. Disse o pontífice emérito: “A troca de informações pode transformar-se numa verdadeira comunicação, os contatos podem amadurecer em amizade, as conexões podem facilitar a comunhão. Se as redes sociais são chamadas a concretizar esse grande potencial, as pessoas que nelas participam devem esforçar-se por serem autênticas, porque nesses espaços não se partilham apenas ideias e informações, mas em última instância a pessoa comunica-se a si mesma”.

Também o Papa Francisco, em 2014, nos aponta que “o ambiente de comunicação pode ajudar-nos a crescer ou, pelo contrário, desorientar-nos”. Na mensagem para o DMCS, ele afirma: “não basta circular pelas ‘estradas’ digitais, isto é, simplesmente estar conectados: é necessário que a conexão seja acompanhada pelo encontro verdadeiro. Não podemos viver sozinhos, fechados em nós mesmos. Precisamos amar e ser amados. Precisamos de ternura. Não são as estratégias comunicativas que garantem a beleza, a bondade e a verdade da comunicação (…). A rede digital pode ser um lugar rico de humanidade: não uma rede de fios, mas de pessoas humanas”.

Em tempos em que o mais simples e minúsculos dos smarthphones nos coloca num ambiente para além do nosso espaço geográfico, vale a pena refletir sobre a ampliação de nossas relações virtuais/reais, prezando pela verdade, acolhida e profundidade, evitando as superficialidades que a rede oferece. Nas redes sociais, o convite é para que possamos cada vez mais dar tessitura a fraternidade que nos propomos a viver, seja com apenas dez, mil ou milhares de pessoas. Seja como for, que sejam relações sadias. E que, no fim de tudo, as pessoas que partilham a fraternidade, a solidariedade e o amor sejam, sim, as pessoas mais populares.

Magnus Regis, jornalista
Assessoria de Comunicação – Irmãs do Imaculado Coração de Maria

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