ENTREVISTA: Irmã Karine Bittencourt fala sobre a Consagração Definitiva

 
 
 

Aos 28 anos, a jovem Irmã Karine Soares Bittencourt se prepara para um momento todo especial: a Consagração Definitiva como Irmã do Imaculado Coração de Maria. A celebração eucarística, com o rito de consagração, acontecerá no dia 17 de setembro, em Gravataí/RS.

Entre o ingresso da Congregação e a profissão definitiva, já se passaram quase 10 anos. Em dezembro de 2012, a Irmã Karine fez sua primeira profissão religiosa inspirada pela passagem bíblica: “Eis-me aqui, ó Deus, para fazer a tua Vontade”. Atualmente, a Irmã está inserida na comunidade ICM de Canoas, onde trabalha na animação vocacional da Província Maria Mãe de Deus.

Em entrevista ao site das Irmãs ICM, Irmã Karine fala como foi enfrentar a oposição inicial da família à sua vocação, a caminhada formativa e o que pensa sobre a Vida Religiosa Consagrada. A religiosa, que também gosta de séries, especialmente Game Of Trhones, e tem talento de cortar cabelos, o que é desconhecido de muitos, encoraja a outras meninas e mulheres a terem a coragem de dizer SIM ao chamado de Deus.

Confira a entrevista:

Que lembranças tem daquele primeiro dia em você deixou sua casa e entrou para comunidade da Congregação?

Tempos da formação com as então formandas – hoje Irmãs – Adriane e Marie Mirca.

Eu acredito que nunca será uma tarefa fácil deixar a nossa família e nossa casa. Eu me recordo de ter sentimentos contrastantes: alegria e tristeza, entusiasmo e medo… Esses sentimentos estavam misturados em mim, porque eu sabia que a decisão que eu estava tomando ia mudar a minha vida. Tinha alegria por estar dando um passo em direção à descoberta do que Deus queria para mim, mas também tinha tristeza porque, embora minha casa ficasse a apenas quinze minutos da casa de formação, e eu soubesse que não estava abandonando minha família, sabia que não teria o convívio familiar diário. Sentia entusiasmo e animação por estar me aventurando em um caminho diferente, mas também tinha medo do que encontraria a minha frente.

Minha família não me apoiava quanto a entrar na Congregação. No dia em que eu sai de casa, algumas horas antes de a Ir. Claire (minha formadora do aspirantado) vir me buscar, sabendo que eu não ia voltar atrás na minha decisão, minha mãe se trancou no quarto para não me ver sair. Quando a Irmã chegou lá em casa, estava um “climão”: Minha mãe não se despediu, minha avó e meus irmãos choravam e eu precisava me manter firme porque sabia que se vacilasse a qualquer momento, podia acabar desistindo. No caminho para o aspirantado, lembro de ter chorado um pouco. Enfim, hoje lembrando, eu acho graça e até um pouco dramático demais, mas são as emoções do momento. Depois de alguns poucos dias, minha avó, minha dinda e meus irmãos foram me visitar no aspirantado, viram que eu estava bem, feliz e contaram para minha mãe. Depois de algum tempo, ela também foi me visitar.

O que você destaca dessa caminhada de intensa formação para a Vida Religiosa?

Nos últimos dias, por ocasião da Consagração Definitiva, ao conversar com as comunidades eclesiais em Canoas, nas celebrações, estive refletindo que, desde o início do acompanhamento vocacional até hoje já são doze anos. Entrei na Congregação em 2009, então no próximo ano, vai fazer dez anos que estou na Vida Religiosa. Uma das senhoras em uma comunidade disse: “Meu Deus, é muito tempo. Se fosse todo esse tempo, esperando um casamento, hoje em dia, acho que não daria certo.” O tempo de formação é propício para firmarmos nossas motivações para seguir a Jesus Cristo, para configurarmos o nosso ser e o nosso agir ao Carisma da Congregação, para refletirmos e rezarmos sobre a opção de vida que estamos fazendo e para crescer como pessoa, como cristã e como consagrada. É também um tempo de muito discernimento vocacional. Por isso, ao longo da formação, algumas percebem que este não é o seu caminho e deixam a formação para a Vida Religiosa, assumindo outra vocação.

2010: na Beatificação de Bárbara Maix, no Gigantinho.

De fato, a Vida Religiosa oportuniza uma longa e intensa caminhada de formação. Temos essa preparação na formação inicial (antes da Consagração Definitiva), mas ela perdura por toda a vida, com a formação permanente. Ou seja, uma religiosa consagrada está sempre e em contínua formação. Isso é ocasião para crescimento, mas é também uma grande responsabilidade, pois o compromisso que assumimos com a Igreja, com a Congregação e com as pessoas é exigente.

A tua consagração definitiva acontece nos próximos dias. O que dizer desse momento em que você dará o teu SIM definitivo a Deus?

É um momento muito bonito de confirmação da minha vocação perante Deus e a Igreja. Já estou indo para o sexto ano como irmã, então é momento de celebrar a caminhada feita até aqui. Claro, eu refleti muito durante o meu processo formativo. Acredito que, diante de um momento como esse de confirmação, todas as pessoas se questionam “será que é isso mesmo?” Eu me questionei. Lembro de um dia, há alguns anos, ter perguntado para uma amiga no trabalho sobre o que ela sentira às vésperas do casamento. Ela me confidenciou que na noite anterior à cerimônia, estava bastante nervosa e muitas vezes lhe vinha à mente as seguintes interrogações: “Será que é isso mesmo? Será que esse é o homem certo? Será que vai dar certo?” Acredito que isso é normal e não minto sobre também ter me interrogado dessa maneira. Entretanto, sempre, nas minhas orações, quando penso e rezo sobre tudo o que vivi até agora, sinto Deus me dizer que é esse o caminho que Ele escolheu para minha vida e é como Irmã que eu vivo a minha realização humana.

 

 

 

Dezembro de 2012: Primeira profissão religiosa, em Caxias do Sul.

Renovação da profissão religiosa na comunidade do Colégio Dom Feliciano

O que é ser uma Irmã do Imaculado Coração de Maria?

É ser pessoa livre para amar e para servir. É ser alguém que coloca a sua vida em uma busca constante pela Vontade de Deus a fim de realizá-la na história. É abraçar a causa do Evangelho e suas consequências, colocando a vida à serviço dos empobrecidos e necessitados de nossa sociedade. É celebrar e partilhar a vida em comunidade, no espírito dos primeiros cristãos. É ser alguém que abre seu coração para a vida assim como Maria, que é modelo de virtudes. É defender a vida e a dignidade da mulher e das crianças em vulnerabilidade social como fez nossa Fundadora, a Bem-Aventurada Bárbara Maix. É ser pessoa feliz e realizada na missão que assume!

A vida oferece tantas possibilidades como, por exemplo, emprego, muito dinheiro, viagens, formar uma família e por aí vai. Há muita gente que pensa que a Vida Religiosa é a última opção de vida para uma pessoa. Diante disso, o que você pode nos dizer?

Olha, eu não me surpreendo com esse pensar, pois eu também imaginava que uma pessoa só ficava Irmã se não tivesse dado certo em outra coisa. Acho um pouco difícil que as pessoas pensem diferente, considerando a Vida Religiosa que é apresentada nas novelas e filmes, por exemplo. Quase sempre mostram uma pessoa infeliz em seus relacionamentos que acaba buscando a Vida Religiosa como refúgio ou esconderijo. Ou uma jovem que é separada do amor da sua vida e é trancafiada num convento. Ou mostram Irmãs bobinhas que passam fazendo o sinal da cruz, escandalizadas com tudo. Eu brinco com as jovens que é meio difícil escolher ser Irmã se você assiste Invocação do Mal 2, por exemplo, onde a assombração do filme de terror é uma freira… kkk.

Eu aprendi a ver a Vida Religiosa como um caminho possível quando fui fazer o Curso Normal (magistério) e conheci as Irmãs ICM no Colégio Dom Feliciano. Na convivência escolar, fui desfazendo os preconceitos que eu tinha. Penso que ninguém ama aquilo que não conhece. Por isso, sempre que tenho oportunidade, digo para os(as) jovens que procurem conhecer os caminhos antes de fazer uma opção de vida. Uma pessoa só é capaz de fazer escolhas quando se lhe apresentam diferentes opções e todas são igualmente interessantes e atrativas. Não há escolhas a serem feitas quando só existe um único caminho.

Se pudéssemos, por um momento, voltar no tempo, o que a Irmã Karine de hoje diria para a menina Karine naquele primeiro dia em que pensou em ser Irmã do Imaculado Coração de Maria?

Eu diria: “Olha, Karine, não vai ser nada fácil, principalmente por causa da oposição da tua família e dos teus amigos. Mesmo assim, Deus vai colocar pessoas maravilhosas no teu caminho, que vão te apoiar, te ajudar e estar do teu lado quando as dúvidas vierem. Confia em Deus e segue em frente encarando os desafios. Todo o esforço vai valer a pena, porque você vai se realizar como pessoa e ser muito feliz!”

Família da Irmã Karine

RAPIDAS:

Deus?
Autor da vida e da vocação, Senhor da história, Pai amoroso e rico em misericórdia. Nunca nos abandona ou desiste de nós.

Jesus?
Aquele que nos chamou a viver e proclamar o Seu Projeto para a humanidade. Nosso Mestre e Senhor que está sempre ao nosso lado para que nos configuremos a Ele.

Maria?
Modelo de virtudes, primeira discípula, nossa mãe fiel, e aquela a quem sempre podemos recorrer.

A missão ICM?
É um desafio cotidiano, mas que promove e defende a vida em muitos lugares. Onde existe uma Irmã ICM, sempre há alguém se doando pelo povo.

Uma Inspiração?
A Bem-Aventurada Bárbara Maix. Ela é uma grande inspiração para mim. Foi uma jovem sintonizada com Deus e Sua Vontade. Não mediu esforços para defender as mulheres e as crianças órfãs. Foi capaz de abandonar todas as seguranças para ser fiel a Vontade de Deus e ao seguimento a Jesus Cristo. Amou e congregou muitas pessoas em torno do Projeto de Deus.

Tipo de música?
Bah, eu amo música. De muitos tipos. Não tenho um tipo único. Se você escutasse minhas playlists no Spotify, ia saber que vai desde rock a música clássica…

Um esporte?
Não sou muito dada a esportes, mas eu gosto de futebol e vôlei.

…. mas pratica esse esporte?
Muito raramente… Mas quando rola uma oportunidade de jogar um vôlei ou futebol, eu me presto kkk…

Uma série?
Nossa… Eu tenho muuuuitas, mas a minha favorita é Game of Thrones.

Um talento seu que ainda ninguém sabe?
Humm… Uma coisa que eu faço e que poucas pessoas sabem… É que eu sei cortar cabelo kkk

Uma comida?
Eu gosto muito de sushi e amo todas as comidas em que se use molho branco.

Nas horas vagas eu gosto…?
De ler.

Mensagem final?
Acredito muito que Deus nos chama para viver um projeto e que fora do caminho que Ele nos traçou, não há como viver completa e feliz. Então, se você está lendo isso nesse momento, e tem se perguntado sobre a Vontade de Deus para sua vida, procure se orientar, realizar um acompanhamento vocacional para fazer um discernimento. Você jamais vai escolher um caminho que não conhece, por isso procure conhecer as opções vocacionais antes de tomar uma decisão. Quando uma pessoa se encontra, se realiza na vocação, ela contribui para que o mundo seja melhor. Se você deseja deixar marcar, fazer algo bom com sua vida, dar sua contribuição ao mundo, então viva intensamente a sua vocação, seja ela qual for. E lembre sempre que Deus nunca desiste das pessoas. Ele vai sempre procurar você, chamar você, mesmo quando você estiver distraído(a). É lá onde você vive, junto dos seus, que Ele vai lhe encontrar!

Por: Magnus Regis
comunicacao@icm-sec.org.br

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