Contra o Tráfico de Pessoas, religiosas promovem ação missionária na fronteira do Brasil e Guiana Francesa

 
 
 

Uma viagem nas periferias do mundo

Luis Miguel Modino, Jornalisa
Ir. Roselei Bertoldo, Rede Um Grito Pela Vida.

Ajudar o povo a tomar consciência das situações de vida que fazem parte do seu cotidiano é o primeiro passo para construir um mundo melhor para todos, mas, sobretudo de mudar a vida dos povos, de pessoas concretas que sofrem as consequências de uma sociedade onde tudo virou mercadoria, onde tudo tem preço, onde a vida vale pouco ou nada.

Mais uma vez, a Rede Um Grito pela Vida, seguindo o chamado que o Papa Francisco faz a ser Igreja em saída, que se fez presente nas periferias do mundo, chegando num desses lugares onde bem pode ser chamado de “terra sem lei”. A fronteira entre o Amapá e a Guyana Francesa é o lugar de passagem de pessoas que querendo uma vida melhor acabam perdendo o controle da própria vida, que fica nas mãos de gente sem escrúpulo que escraviza inocentes.

Neste ano em que a Rede Um Grito Pela Vida comemora dez anos de caminhada, queremos conhecer uma realidade de fronteira onde ainda não há um núcleo da Rede e animar a Vida Religiosa Consagrada para que pense na possibilidade de um trabalho em rede. Por isso, as referenciais da Rede Um Grito Pela Vida na Região Norte decidiram, como marco dos 10 anos, fazerem a experiência entre os dias 09 a 23 de julho de 2017 nesta região. Estiveram presente as irmãs: Isabel do Rocio Kuss, Irmãs Catequistas Franciscanas, Acre; Roselei Bertoldo, Irmãs do Imaculado Coração de Maria, Amazonas; Valmí Bohn, Irmãs da Divina Providência, Amazonas; Maria de Jesus Borges Costa e Josineide Maria da Silva, Irmãs de Notre Dame de Namur e Irmã Rosangela dos Santos, Irmãs Missionárias de Maria, Xaverianas.

Os encontros com a Vida Religiosa e as Pastorais Sociais no Amapá, onde foi apresentado o trabalho da Rede e a realidade do Tráfico de Pessoas na Região Norte, tem mostrado o apelo de acompanhar a vida das vítimas do abuso, exploração sexual e o Tráfico de pessoas.

Conhecer o trabalho que está sendo realizado, como na Casa da Hospitalidade, onde as Irmãs, atendem 85 pessoas a partir do nascimento, portadores de deficiência, abusadas sexualmente e abandonadas; e a casa Bethania, em Macapá, também atendidas por Irmãs que acolhem atualmente 21 meninas, onde relatam os casos de violência que têm ajudado a descobrir que o abuso, exploração sexual e o tráfico de pessoas estão cada vez mais presentes na sociedade e no Estado. Diante disso, urge iniciar um trabalho organizado em rede.

Chegar ao Oiaopoque é uma verdadeira aventura! Uma viagem em que o risco toma conta das pessoas. O descaso dos poderes públicos se traduz em constantes atoleiros que fazem com que ninguém saiba quando nem como vai chegar no destino. Que uma viagem de oito horas se converta numa de vinte e oito. Nada que preocupe a quem anda de avião e engana o povo com promessas que nunca serão cumpridas.

Capacitando multiplicadoras

Muitas vezes são mulheres indígenas as vítimas dessa violência irracional. Diante dessa realidade, as mulheres caciques e lideranças querem encontrar os meios para proteger as aldeias e evitar que as pessoas se tornem vítimas desses crimes. Os relatos das mulheres que participavam da oficina promovida na aldeia do Manga ajudam a sentir a vida sofrida de pessoas concretas. Histórias que se repetem nas visitas a diferentes comunidades de um e outro lado do Rio Oiapoque, seja em território brasileiro e/ou da Guyana Francesa, onde os euros dos cidadãos franceses constroem grandes mansões que atraem mulheres e adolescentes pobres, que se tornam vítimas de estupros e abusos. Em muitos casos, as vítimas desaparecem para sempre.

O trabalho tem que começar pelas crianças, vítimas potenciais e reais de situações de abuso, como acontece com as meninas e meninos das muitas aldeias e comunidades da região. As oficinas ajudam as crianças e os adolescentes a se protegerem, através de materiais que mostram histórias de abuso, exploração sexual e do tráfico, como a cartilha “O Sumiço de Carolina”.

O sofrimento ultrapassa as fronteiras e o trabalho de prevenção, realizado pelas Irmãs que moram no Oiapoque, também tem que ir além dessas divisões que muitas vezes favorecem àqueles que se aproveitam das vítimas. As promessas de trabalho nos garimpos da Guyana Francesa são, na verdade, desculpas para a exploração sexual, de onde algumas mulheres conseguem fugir, enquanto muitas são exploradas até morrer.

As margens do Rio Oiapoque têm se convertido em lugar onde a violação dos direitos, drogadição, alcoolismo, violência sexual são realidades que a gente vê a olho nu. Uma realidade muito chocante, mas que infelizmente tem se naturalizado e que faz que crianças e adolescentes sejam exploradas em prostíbulos que funcionam 24 horas, lugares de morte e destruição de vidas inocentes que sofrem as consequências de uma sociedade que olha para o outro lado.

Mesmo diante de situações de opressão, nunca podemos perder a esperança, pois isso nos ajuda a não desistir na lutar por um mundo melhor para todos. Nosso compromisso cristão faz com que mude a vida de pessoas concretas, que descobrem no olhar misericordioso de Deus uma possibilidade de retomar uma vida plena e seu cuidado cheio de Amor.

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