ARTIGO: O último solo de uma música

 
 
 

O último solo de uma música

Estamos no mês de março de 2021, adentrando-nos, sempre mais, no mistério da Misericórdia Divina. Itinerantes no caminho da purificação e conversão, quero refletir sobre O Último Solo de uma música que se vai entre as nuvens de um novo amanhecer. A solista é Bárbara Maix em sua partida para Deus e cuja Páscoa celebramos no dia 17. Ela, ainda jovem, aderiu ao Projeto de Deus Pai, no seguimento a Jesus Cristo, sob o dinamismo amoroso do Espírito Santo.

Atenta à Vontade de Deus, ensaiou o piano a quatro mãos: Maria, mulher da dinâmica do Reino; as Irmãs e os pobres no coração da Igreja, na diversidade sonora de um hino à Trindade Santa. Como solista num conjunto orquestral, composto pelos instrumentos da primeira Comunidade Religiosa Consagrada, foi vivendo e experimentando em sua voz, o solar da música divina, tendo a realidade como sala de concerto. Bárbara foi semelhante a um piano solo que, no conjunto da orquestra ICM, foi fazendo contraste com outros timbres, porém à cadência da melodia principal. Seu olhar solidário revela “conhecimento de harmonia, aptidão, flexibilidade, criatividade, capacidade de ouvir o outro, de reação, e de equilíbrio” entre ser piano e solista, fazendo ecoar os sons das mulheres, de crianças desvalidas, dos timbres da escravidão.

Dia 17 de março de 1873, após a Celebração Eucarística, sentou-se para descansar. Levantou-se, em seguida e olhou para o jardim, contemplando as flores retratadas em seu ser, trazendo o perfume sentido quando criança. Sentou-se novamente, tendo consciência de que, em sua vida missionária, não apenas fez solos, mas viveu de solos, assumindo o Carisma, Espiritualidade e Missão da Congregação que fundara.

Encontrando no infinito equilíbrio e ordem, no ritmo dentro do compasso “abriu desmesuradamente os olhos, dos quais caíram duas grossas lágrimas” de forma cadenciada. E, no silêncio que se impunha, esse foi seu último solo: Solo de uma música sem letras, sem notas, mas, belamente harmônica. Dava adeus à sala de concerto; estava a sós com a amada e Bendita Trindade, deixava para as Irmãs do Imaculado Coração de Maria, a polifonia das distinções de etnias e raças, numa combinação simultânea dos vários sons que ecoam da garganta dos pobres. Em “seu leve sorriso no rosto” demonstrava a emoção e a alegria ao solar a música pascal de sua própria vida, sob a regência do Ressuscitado, na apoteose do violino do Espírito divino.

Hoje, no centro da sala de concerto, está a orquestra com diversos instrumentos e, na partitura, a música que vem sendo executada por tantas gerações, assimilando a evolução de cada contexto histórico revestidos com os arranjos das culturas a garantir o fio condutor do Projeto de Bárbara Maix.

Devotar-se à Bem-Aventurada Bárbara Maix exige, do devoto ou da devota, compromisso com sua vida e Missão. Requer expressar no mundo o seu autêntico perfil, o perfil da bravura e autodeterminação de uma mulher profetisa, ousada na arte da solidariedade, expansiva no otimismo e teimosia que brotavam de sua intimidade com o Mistério divino.

Cada Irmã e leigo/leiga ICM é solista de uma música inacabada. Possamos juntos/as solar a música de um Novo Tempo no Piano Solo de nossa Missão.

Salve 17 /03/1873 no hoje de 2021.

Salve Bárbara Maix!

 

Irmã Maria Freire da Silva.
Diretora Geral da Congregação da
Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria.